abril 08, 2009
Alento #9
VOZ III
(...)Mas os Danças Ocultas tinham de ser mais do que o sonho pequenino de cada um de nós. Tinham de ser assim como que o nosso grande sonho, percebes? Hoje em dia, o que queremos é ir tocar a todas as partes do mundo e espalhar a nossa música. Acho que é isso que nos contenta.(...)
Adoro o meu instrumento. Mas há alturas em que nem sequer me apetece olhar para a minha concertina, quanto mais tocar nela. É difícil de explicar, é como se estivéssemos a lidar com um bicho, um animal vivo...
textos de Jorge P. Pires
fotos de Duarte Belo
© Assírio & Alvim 2003
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março 06, 2009
Alento #8
DIÁSTOLE
(...)Em Inglaterra, onde o instrumento se popularizou rapidamente entre a classe operária, existiam na segunda metade do século dezenas de orquestras de concertinas – hexagonais e não-diatónicas, como a de Wheatstone - na maior parte dos casos formadas por mineiros. Em simultâneo, a elite intelectual via no instrumento um novo recurso experimental, enquanto os burgueses do comércio e da indústria admiravam nele uma marca de exotismo e requinte – pelo que se sucederam os modelos de luxo, prolixamente ornamentados, muitas vezes com motivos ou acabamentos orientais, e claramente destinados a animar os salões urbanos. (...)
textos de Jorge P. Pires
fotos de Duarte Belo
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janeiro 13, 2009
Alento #7
RESPIRAÇÃO
(...)Dada a sua intensa timidez, e tal como sucedeu em outras ocasiões, foi Faraday, um brilhante orador, quem a apresentou em seu lugar, embora coadjuvado por toda uma panóplia de artefactos que Charles reuniu para a ocasião: instrumentos javaneses, berimbaus de boca diversos (onde a palheta não é accionada pelo sopro mas manualmente e que os ingleses conhecem como «harpa judia»), e mesmo um Khon, órgão de boca com mecânica muito semelhante à do Sheng. (...)
textos de Jorge P. Pires
fotos de Duarte Belo
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novembro 25, 2008
Alento #6
SUSTENTO
As melodias do vento e os instrumentos do sopro exibem sempre um paganismo essencial, que ainda hoje pode ser detectado nas gaitas de foles de origem celta – esses odres de vento, semelhantes ao que Éolo confiou a Ulisses. Mas foi a partir da liturgia cristã e dos saberes a ela acoplados, que, ao longo da Idade Média, a música europeia evoluiu lentamente para a erudição. Sobretudo desde que conquistou, não apenas uma linguagem própria, como um modo de escrita (...)
textos de Jorge P. Pires
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outubro 22, 2008
Alento #5
PRANA
Não é possível esquecer os saberes da Índia, onde frutificaram e se aperfeiçoaram muitas e excelentes técnicas para controlar o corpo e a mente através da respiração. A importância do tempo é nelas uma das constantes. Apurar o ritmo vital é, antes de mais, aprender a dominar o fôlego, o alento.
(...)
Porque o prana controla os cinco vectores fundamentais do universo – o etéreo, o aéreo, o luminoso, o líquido e o sólido – e, quando absorvido correctamente pelos canais subtis do corpo, repara e afeiçoa as suas cinco regiões vivificantes: o peito, repositório da energia absorvida; a região superior, associada à palavra, à consciência e à meditação; a região intermédia do plexo solar, que é a da nutrição e da digestão; o abdómen inferior, de onde se expulsa o sopro que sai (apana); e finalmente a circulação, espalhando as influências benfazejas até ao âmago do organismo e em todos os seus pontos astrais.
Para conseguir a concentração necessária a tal desafio, para entender as múltiplas circunvoluções do prana, também aqui é essencial recorrer ao som, que é a forma vibrátil da respiração.
textos de Jorge P. Pires
fotos de Duarte Belo
© Assírio & Alvim 2003
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outubro 03, 2008
Alento #3
SOPRO
Seja ou não verdade que aprenderam com Zalmoxis os saberes pitagóricos e órficos, o certo é que a colheita do visco, o fabrico das mágicas poções e dos unguentos fermentados com o amparo dos óleos e das manteigas essenciais apenas constituíam parte dos segredos dos druidas.
Os ínclitos relatos das façanhas praticadas por Mog Ruith, provavelmente o mais célebre de todos os druidas da Irlanda, não permitem grandes dúvidas: Mog Ruith dominava os inimigos com o sopro, e sabia usá-lo de forma a despertar em seu benefício as forças mais inumanas da natureza.
(...)
Para muitas das tribos da Europa, como noutras partes do mundo, o sopro e a palavra sempre foram duas faces do mesmo: apoiam-se mutuamente, socorrem-se um do outro.
Porque, quando circula no interior do corpo, o sopro entra em sintonia com o movimento dos fluidos e dos humores e comunica-lhes a força vital. E, quando circula no exterior, a linguagem faz o mesmo junto das coisas do universo. Atribui-lhes ordenação e sentido.
textos de Jorge P. Pires
fotos de Duarte Belo
© Assírio & Alvim 2003
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setembro 26, 2008
Alento #2
FÔLEGO
(...)
Guardar o fôlego, modulá-lo, domá-lo – eis a verdadeira arte eólica. Redistribuí-lo, proporcionar com equidade as suas benfeitorias, administrar esse espírito de vida aos recessos mais íntimos do mundo, animar tanto o que é visível como o que é subterrâneo.
Espalhar a harmonia.
Entre o alto e o baixo há um espaço de sintonia, de vibração.
Há como que vozes, no grandioso como no ínfimo.
Há uma toada desconhecida no restolho que os ventos levantam.
O universo é uma reiterada estridência.
É som.
textos de Jorge P. Pires
fotos de Duarte Belo
© Assírio & Alvim 2003
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setembro 19, 2008
Alento #1
Alento ( Danças Ocultas) é o livro
editado em 2003 pela Assírio & Alvim
(ver foto da capa na coluna à direita - Outras Edições)
Nos próximos posts
iremos aqui citar parte dos textos de Jorge P. Pires
e das fotos de Duarte Belo
ÉOLO
Por ser ingovernável, é também uma força temível, receada pelos próprios deuses, para a qual é sempre necessário encontrar mediações, metamorfoses – como a compulsiva transformação de Quetzalcoatl em Ehecatl. Ou as narrativas descritas nos mitos gregos.
Preocupado com a possibilidade de os ventos poderem um dia arrastar consigo o céu, a terra e tudo o que existe, o próprio Zeus viu-se forçado a encontrar para eles um guardião. A escolha recaiu sobre Éolo, um mortal recomendado por Hera, rainha das divindades e carismática dama que tinha o pavão e a vaca por símbolos. Era ela a proprietária original dos ventos – que, sendo transições do passado para o futuro, carregam também consigo os espíritos dos mortos, os quais Hera encaminhava para o Hades.
(...)
Mas Ulisses cedeu ao cansaço e adormeceu durante a viagem. Os seus homens, imaginando que o odre continha vinho, abriram-no e deixaram de lá escapar todos os ventos, afastando-se assim uma vez mais do rumo desejado.
© Assírio & Alvim 2003
Publicado por dancas às 12:33 PM | Comentários (0)
julho 18, 2006
Video Alento
Na preparação de Alento (ed. Assírio e Alvim, 2003)
o Jorge Pires recolheu estas imagens
um ensaio na Casa do Rio
numa noite fria de Fevereiro em 2003
Publicado por dancas às 10:07 AM | Comentários (0)









